A imagem age, e enquanto ação é concreta, não representação abstrata. Apresenta-se presente, não há agente atrás da ação nem origem no efeito. Sem sua subjugação aos referentes e designados, permitindo sua alforria de uma origem que serviria de explicação, abrimos as portas do ser ao parecer sem julgá-lo secundário ou endividado a uma substância primeira.
Platão dizia que o simulacro poderia ser a má cópia, degradada sem seu afastamento do original por constantes variações temporais que lhe levavam à imperfeição crescente, ou ainda, poderia ser o efeito de um modelo maldito, aquém e além da díade modelo-cópia, posto que esta última, ainda que degradad, é definida a partir de sua verossimilhança com sua origem, trás dentro de si uma afirmação identitária de reprodução concebida enquanto redundância. O simulacro aquém da díade teria seu fundamento não no modelo, mas sim no ruído, no caosmos donde adviriam uma série de variações contínuas sem ponto de chegada e saída.
A repetição deste modo nada mais é que um efeito secundário da afirmação da diferença e não o contrário.
Do mesmo modo os chamados ruído e fundo são o ponto de consistência molecular das formas molares: a atmosfera de pequenas percepções.
Trabalhar a ontologia da imagem na arte e filosofia contemporâneas é evidenciar a operação libertária do mundo visto como simulacro de si.
Abandonamos então uma ontologia dividida e ordenada por juízos morais de verdade e falsidade em pról de uma ontologia estética que afirma seus modos de ser em estilísticas onde se coadunam em um só fluxo a ontologia, a ética, a episteme e a lógica.
Desubstancializar as parades do Paço pela sutilização de sua concretude através do contágio pelas imagens de luz e sombras nelas projetadas. Dar vida aos fantasmas e simulacros libertando-os das cavernas sutis e bidimencionais. Possuir às pedras do Paço de espirítos malditos que usurpem sua realidade dura, é disso que trata esta exposição.
Desde Platão e suas sombras enganosas projetadas nas paredes da caverna até autores contemporâneos como Guy Debord e Paul Virilio em sua crítica da assunção da imagética na contemporaneidade, por eles entendida como desrealização do real, vemos a imagem no banco dos réus do mundo, sendo condenadas definitivamente à falsidade ou recebendo a liberdade provisória da referência verossimilhante ao mundo com seus corpos e objetos realmente reais.
De sombras e reflexos é que se constitui nossa exposição, intentando subverter este status outorgado à imagem através da exacerbação da mentira, da ilusão e da falsidade destas, ao ponto de contaminarem com esta maledicência aos corpos e objetos do mundo. Transformando enfim o real em miragem.
Prover ao porão do paço de um caráter onírico, interferindo no seu espaço com imagens luminosas projetas em seus suportes, com reflexos paradoxais que interrompem sentidos, com medonhas imagens absurdas insinuando-se pelos recintos. Tornar ao porão do paço municipal um simulacro de si e do mundo, porão onírico tomado por simulacros e fantasmas a assombrar o bom senso de suas pedras centenárias.